A saga do politicamente correto chega ao vôlei

Pra quem gosta de vôlei, a terça-feira foi um dia fantástico. Os playoffs da superliga feminina – a mais disputada desde anos, dizem os especialistas – estão a todo vapor. E tudo transmitido pela TV (fechada, ok), espaço que antes era reservado apenas para os jogos principais. Começou às 16h e pouquinho com o jogo “teoricamente” mais fácil. O Unilever, 2ª colocado, enfrentou o Mackenzie, 7º e, apesar das duas derrotas seguidas do time carioca, ainda era considerado imbatível.

Algumas coisas que estamos acostumados voltaram a aparecer nesse jogo: o Bernardinho, personagem sempre à parte de qualquer jogo, estressadíssimo como de costume. E a Mari, relembrando alguns de seus jogos marcantes, tendo apagões novamente. Fazia tempo que eu não assistia crises tão intensas assim do Bernardinho. Fase ruim do time, o estresse é maior. Me fez lembrar da época em que ele dirigia a seleção feminina. E mais, lembrou a todos que, apesar dele comandar a seleção masculina atualmente e manter seu prestígio com a CBV, ele toma cartão amarelo e recebe notificação pelas vociferações que fez depois do jogo contra a arbitragem.

Apesar da inquestionável campanha do Unilever ao longo desses anos, o time segue sustentando a sina da prepotência entre os demais concorrentes.  Ironia do destino ou não, no 4º set, quando o Mackenzie já caminhava para a vitória e, assim, fechar o jogo por 3×1, pôde-se ouvir do banco de reservas do Unilever um auxiliar bradando: “mais humildade, meninas, mais humildade. Vamos virar”. Resultado: as cariocas conseguiram fechar o set. Mas não o jogo.

Sem dar corda pro falso moralismo, porque, afinal, acho que algumas estrelas do Rio jogam pra caramba mesmo (casos da Venturini e da Sheila), uma novata do Mackenzie deu um show de bola. A Gabi, de apenas 17 anos, chamou a responsabilidade, não temeu as selecionáveis do outro lado e ganhou o troféu Viva Vôlei no fim do jogo.

Num outro duelo da noite, o Vôlei Futuro enfrentou outro time mineiro em Araçatuba, o Praia Clube. Apesar da minha falta de simpatia pelo time da casa (pra mim é o Real Madrid do vôlei brasileiro), era visível a superioridade das paulistas. O que não se refletiu em quadra. O Vôlei Futuro suou para vencer por 3×2.  Mas apesar da instabilidade das duas equipes, o fato que mais repercutiu na mídia depois do jogo foi uma discussão entre o Paulo Coco, técnico do Vôlei Futuro, e a ponteira Fernanda Garay.

Num dos tempos técnicos do último set, vendo o time totalmente desequilibrado e sem garra, Coco chamou Fernanda de lado e teve uma conversa mais “exaltada”, chegando a segurá-la pelo braço e chacoalhar a atleta. Pra quem assistia ao jogo como eu, nada mais normal no calor do momento. Os repórteres que o entrevistaram no final da partida também expressaram a mesma opinião. Alguns veículos de imprensa, entretanto, acharam aquilo um absurdo, o que levou o técnico a ter que se desculpar publicamente por meio de uma nota oficial.

Essa história do politicamente correto me incomoda bastante e às vezes ultrapassa seus próprios limites. A opinião pública tem esse conservadorismo, mesmo? O fato dos jogos passarem a ser mais televisionados vai influenciar cada vez mais nesse moralismo? O que seria do saudoso Karpol nos dias de hoje? E o próprio Bernardinho – conhecido carinhosamente como Karpolzinho – diferiu em que do Paulo Coco?

Não espero grandes surpresas nestas quartas-de-final. Acho que os quatro grandes passarão adiante (Osasco, Unilever, Vôlei Futuro e Minas). Mas esta última terça-feira reviveu tempos de glória do esporte.

Alguns vídeos do Karpol para degustação:

Virada da antiga URSS contra o Peru em 1988, Seul

Karpol x Sokolova

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