Vou correndo e não posso parar

‘Vardinho’, o meu avô, foi caminhoneiro. Contava histórias de quando as estradas do interior paulista ainda nem eram asfaltadas. Uma ida a São Paulo era uma aventura, dizia. Conhecia muito bem a Anhanguera numa época distante desses tapetes rodoviários que ligam capital a interior hoje em dia. Gostava de dirigir. Se fosse hoje, alguns diriam que era “sua terapia”. Mas, pra ele, significou trabalho por muito tempo. Depois, foi pegando gosto pela coisa. Foi um dos primeiros a trazer para a cidade um Ford Pavão 127. Mas sua verdadeira paixão foi o Monza. Teve vários modelos e ia atualizando com o passar dos anos.

Sempre teve pulso firme e tinha fama de avô bravo. Mesmo convalescente, gostava de um bom papo, de contar histórias de caminhão e de falar do seu ‘Parmera”.  Numa dessas vezes, cheguei no meio tarde, de surpresa. A intenção era mostrar para a vó e o vô umas fotos da última viagem de férias. Mas a vista já não ajudava e ele não conseguiu acompanhar. A dona Cida, a essa altura, estava preocupada porque eu tinha vindo sozinha. “Veio de ônibus, filha? Por que tá sozinha?”. Não, vó, de carro. Não fazia parte do mundo dela esse tipo de autonomia. O vô, mais que depressa, já tinha assimilado toda a situação, que para ele já passara a ser natural. O que o encucava era outra coisa.

– Mas…. você  é ‘das lerda’ ou ‘das ligeira’?

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