sobre poesia

– sua recalcitrância com a qualidade é fruto da contaminação de seu juízo pela estética burguesa
– tem salvação, doutor?
– branca, loira, trabalhando pra judeu. acho que não

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gente

Foto do Facebook do Sax in the Beats

Foto do Facebook do Sax in the Beats

as calçadas estavam cheias. normal para a avenida mais famosa da cidade numa sexta-feira, no horário de pico. o trânsito também estava carregado, mas não parava. antes de sair de casa, tinha visto na tv uma manchete do jornal que alertava sobre um protesto de professores que tinha passado por ali horas antes. mesmo assim, as filas de carro não chegavam a incomodar o fluxo. o que impressionava era mesmo o número de pessoas nas calçadas. quando o ônibus apontou na paulista, saindo da consolação, olhei pela janela aquele mundaréu de gente e até pensei que fossem resquícios do protesto. mas não. era mesmo gente apressada numa sexta-feira tentando voltar pra casa ou encontrar os amigos para a hora mais esperada da semana.

enquanto o ônibus passava pelo center 3, dava pra ver que a multidão de gente que andava apressada na calçada perdia um pouco da urgência. as pessoas diminuíam o passo e formavam, inconscientemente, um público em torno de dois músicos que tomavam a calçada como palco. e não era apenas a boa música que chamava a atenção. uma espécie de zoomorfização [ou antropomorfização, caso prefiram] dava vida ao panda que tocava sax e ao cavalo na bateria. de tão prosaico, era metafórico: pessoas que se identificavam com músicos sem identidade.

de dentro do ônibus, eu, tão acostumada a novos lares, fui surpreendida por aquele velho clichê que todo mundo tenta refutar: a saudade. saudade daquilo que ainda nem tinha acontecido. coisas de mudança e pertencimento.

falta

porque escrever é encontrar essa voz – ele disse. mas eu quero a tua palavra! qual é a tua palavra? por mais aleijada que ela esteja – quase gritava dentro de mim. e o engraçado é que quando eu o vi pela primeira vez, ele lia exatamente um conto que se chamava ‘palavra’. a palavra foi feita para dizer e não para brilhar – ele disse que foi o Graciliano quem disse. parece essas coisas que acontecem pra gente pensar que tudo é coisa do destino que quer pregar peça e fazer a gente acreditar que é um enredo perfeito de uma crônica.

vez ou outra eu encontro uma voz que não sei ainda se é minha, mas o coração e a alma quase explodem. depois me arrependo do grito. e o alívio só vem assim. aí essa coisa da palavra aparece de novo. ele disse também que isso maltrata as pessoas, envelhece.

sempre falta uma palavra e é verdade.

e na ‘palavra’, termina assim: eu disse a palavra, a palavra que faltava, que sempre falta uma palavra. Falta.

Falem mal, mas falem de mim

Ilustração de Andy Friedman, na New Yorker

Em recente carta aberta na revista The New Yorker, o escritor Philip Roth deflagrou a polêmica. E a Wikipedia, famosa enciclopédia colaborativa on-line, finalmente chegou ao patamar que sempre quis: a credibilidade. Por caminhos duvidosos, é fato, mas conseguiu. Isso porque o maior romancista vivo (é o que diz a maioria dos críticos) despendeu seu tempo para que uma correção fosse feita na página da Wikipedia de A Marca Humana, um de seus romances.

A informação da página dizia que o protagonista Coleman Silk, um professor universitário, foi inspirado em um crítico literário chamado Anatole Broyard, famoso em Nova York. Segundo o próprio Roth, Coleman Silk é, na verdade, inspirado em Melvin Tumin, seu colega na Universidade Princeton.

O caso de Tumin que inspirou a criação de Silk (o personagem fictício) foi uma situação em  sala de aula em que ele usou uma palavra de duplo sentido que pode ter também uma conotação racista. Referindo-se a dois alunos que nunca apareciam na aula, Tumin perguntou se eles existiam mesmo ou eram “spooks”. O termo em inglês que significa “assombração” também pode ser uma forma chula que se referia aos negros antigamente. Por uma triste coincidência, os dois estudantes ausentes eram de fato negros, o que sujou a reputação de Tumin por um bom tempo.

Ilustração de Roberto Negreiros, na Piauí

O contato com a Wikipedia, entretanto, foi em vão e a resposta, no mínimo, irônica. “Entendemos que o autor deva ser considerado a maior autoridade sobre sua própria obra, mas precisamos de fontes secundárias”. 

Espertamente, a reação de Roth foi escrever uma carta aberta para a revista New Yorker. Isso porque além de esclarecer o ocorrido, a carta serviria de fonte para que algum “wikipedista” pudesse, enfim, alterar o verbete.

Além da ironia da situação toda, a Revista Piauí havia publicado uma matéria na edição de julho que veio a corroborar com o entendimento do caso. Em Cooperação Conturbada, Bernardo Esteves conta quem são e por que brigam os editores da Wikipédia em português. Sim, eles brigam. O autor narra inúmeros exemplos de obcecados por editar os verbetes cada vez mais, numa espécie de competição eterna e viciosa. Aqueles chatos do colégio que pareciam uma enciclopédia ambulante angariaram, finalmente, um lugar no meio virtual.