Falem mal, mas falem de mim

Ilustração de Andy Friedman, na New Yorker

Em recente carta aberta na revista The New Yorker, o escritor Philip Roth deflagrou a polêmica. E a Wikipedia, famosa enciclopédia colaborativa on-line, finalmente chegou ao patamar que sempre quis: a credibilidade. Por caminhos duvidosos, é fato, mas conseguiu. Isso porque o maior romancista vivo (é o que diz a maioria dos críticos) despendeu seu tempo para que uma correção fosse feita na página da Wikipedia de A Marca Humana, um de seus romances.

A informação da página dizia que o protagonista Coleman Silk, um professor universitário, foi inspirado em um crítico literário chamado Anatole Broyard, famoso em Nova York. Segundo o próprio Roth, Coleman Silk é, na verdade, inspirado em Melvin Tumin, seu colega na Universidade Princeton.

O caso de Tumin que inspirou a criação de Silk (o personagem fictício) foi uma situação em  sala de aula em que ele usou uma palavra de duplo sentido que pode ter também uma conotação racista. Referindo-se a dois alunos que nunca apareciam na aula, Tumin perguntou se eles existiam mesmo ou eram “spooks”. O termo em inglês que significa “assombração” também pode ser uma forma chula que se referia aos negros antigamente. Por uma triste coincidência, os dois estudantes ausentes eram de fato negros, o que sujou a reputação de Tumin por um bom tempo.

Ilustração de Roberto Negreiros, na Piauí

O contato com a Wikipedia, entretanto, foi em vão e a resposta, no mínimo, irônica. “Entendemos que o autor deva ser considerado a maior autoridade sobre sua própria obra, mas precisamos de fontes secundárias”. 

Espertamente, a reação de Roth foi escrever uma carta aberta para a revista New Yorker. Isso porque além de esclarecer o ocorrido, a carta serviria de fonte para que algum “wikipedista” pudesse, enfim, alterar o verbete.

Além da ironia da situação toda, a Revista Piauí havia publicado uma matéria na edição de julho que veio a corroborar com o entendimento do caso. Em Cooperação Conturbada, Bernardo Esteves conta quem são e por que brigam os editores da Wikipédia em português. Sim, eles brigam. O autor narra inúmeros exemplos de obcecados por editar os verbetes cada vez mais, numa espécie de competição eterna e viciosa. Aqueles chatos do colégio que pareciam uma enciclopédia ambulante angariaram, finalmente, um lugar no meio virtual.

Os ratos, os gatos e o roubo de Spiegelman

Nada poderia ser tão sintomático quanto o que aconteceu na noite de segunda-feira, 28, no Tuca. No primeiro dia do Congresso Internacional de Jornalismo Cultural promovido pela Revista Cult, o roubo de um notebook causou mais comoção na imprensa do que a presença dos palestrantes que o congresso trouxe ao Brasil.

Imagem: Folha

Era a noite da palestra de Art Spiegelman, autor do consagrado Maus, que contrariando sua fama, teve jogo de cintura, superou momentaneamente o roubo do seu notebook e ministrou sua palestra graças ao back-up feito minutos antes, ali naquele mesmo palco do roubo. Spiegelman veio a São Paulo acompanhado de sua mulher, a francesa Françoise Mouly – que encabeçou no fim dos anos 70 a RAW Books & Graphics, e também presenciou tudo. O roubo aconteceu no Tuca, teatro da PUC, na zona Oeste de São Paulo, minutos antes da palestra começar, aos olhos de vários participantes que já estavam na plateia, além de Gay Talese, que ocupava a primeira fila. Ninguém sabe o que realmente aconteceu, apenas suspeitas.

Ao iniciar sua fala, o quadrinista ironizou “Bem, vamos começar porque, afinal, não fui eu o único roubado aqui. Vocês também foram”. Ele se referia ao valor da inscrição do evento, módicos R$800 pagos por uma maioria de estudantes de jornalismo. Esse tema, inclusive, foi muitas vezes debatido nas mesas do evento. O jornalismo cultural é uma área elitizada? Estava ali um rato falando para um monte de gatos da elite paulistana?

Perguntas retóricas à parte e algumas exceções concedidas, a imprensa e participantes do evento especularam que o roubo teria sido cometido por algum fã de quadrinhos. Desses fãs ensandecidos que fazem tudo por uma raridade. Mas, na verdade, quem roubou Spiegelman foi a organização do evento. Um congresso que cobra quase mil reais por participante teria que, no mínimo, se atentar a esses detalhes de segurança. “Vou levar um ano para recuperar tudo que perdi”, disse ele minutos depois da palestra. Era a imagem de um rato que acabara de ser roubado se lamentando a uma plateia de gatos.