Santos, 100 anos de Futebol Arte

* Atenção, esse post contêm spoilers e um ponto de vista extremamente passional de uma torcedora

Câmera em primeiro plano, algumas imagens desfocadas, muito barulho. Ali, no meio do campo, em meio a comemoração dos jogadores, comissão técnica, dirigentes, penetras, a câmera vai flagrando tudo, detalhes de um título muito esperado. É uma das cenas mais bonitas do filme, que leva em seguida, à minha cena preferida.

Na tela enorme do cinema, a diretora consegue passar o que pretendia: uma pessoa com a câmera na mão vai filmando todo aquele êxtase da comemoração e vamos nos sentindo como um narrador onisciente, que vê e participa daquele momento mágico. Eu, do tobogã, vi só de longe o paletó vermelho abraçado ao agasalho alvinegro, que depois seguiram juntos até o meio de campo, saudaram a torcida e explodiam em alegria naquele jeito meio sem saber o que fazer, erguendo os braços e festejando. Vi também um cabelo moicano vagando sem rumo pelo gramado até que se aproximou das cadeiras laranjas, saudou a torcida ensandecida e virou-se para o meio de campo. Essa é uma das melhores tomadas do filme. A câmera que o acompanhava pelas costas, na onisciência, vai girando-se vagarosamente e chega a tempo de registrar a cadência do ajoelhamento e da lágrima que sai dos olhos. Ali, num close super fechado, é o retrato de um menino que conquistou o Brasil, a América, e foi redentor de uma parte da torcida que ainda não tinha prestigiado esse sentimento, da qual eu me encaixo.

No resto, de uma maneira geral, o filme é mediano. Me policiei para não encarnar o torcedor-turma-do-amendoim, mas o veredicto é esse mesmo. É lógico que é sempre bom ouvir as histórias antigas e rever aquele super time da década de 60, mas mesmo nessas cenas a sensação é de que não há muita novidade. Além disso, pesa o fato de que por causa do baixo orçamento, a produção não conseguiu outras imagens de Pelé e nem as demais entrevistas (senti falta de Edu, Zito, Clodoaldo, Coutinho – este último, talvez, por questões mais políticas).

Faltou também explorar mais o simbologismo da camisa branca, que é comentado brevemente pelo jornalista Luiz Zanin e pelo artista plástico Nuno Ramos.  Naquela época, contrastando com o time em sua maioria de negros, a camisa significava não só uma redenção das minorias que encontravam no futebol a sua epifania, mas como também constituía uma estética diferente na época.

As ‘não-vitórias’ é outro ponto de discórdia. Até porque, como é dito durante o filme, “A grandeza de um time tem a ver com a grandeza de seus rivais”. Ficaram de fora jogos importantes como as derrotas para o Boca e Grêmio, na Libertadores, em 2003 e 2007, o que são pontos cruciais na construção do título que viria em 2011. E como esquecer o gol do Ricardinho naquela eliminação do paulista, pré 2002?

Mas, voltando às vitórias, a semi-final do brasileiro de 95 contra o fluminense foi uma das passagens memoráveis. É o típico caso do jogo que nem sempre é final, mas fica guardado como o mais representativo pro torcedor. Reviveu um Giovanni herói, que resgatou o orgulho dos torcedores.

Depois do hiato de títulos entre o final das décadas de 80 e 90, começa a ser narrada a história das gerações Robinho e Neymar. Destaques para os depoimentos do Leão, do próprio Robinho e do Diego. Léo e Elano, que fazem parte dos dois times, representam a ponte entre os dois momentos. “Esse time era um kamikaze”, diz o lateral, fazendo referência ao Santos de 2010.

Outros destaques e passagens interessantes:

– depoimento de Rodolfo Rodriguez e a vibração do público (já haviam aparecido Pelé, Carlos Alberto e boa parte das cenas de 60, mas a aparição do goleiro rendeu bons aplausos no cinema).

– a participação muito engraçada do Mano Brown como fio condutor da narrativa, que acontece dentro de um carro, quando ele e Cosmo Damião estão descendo a Santos para a final do Paulista. Ele tem uns insights muito bons, principalmente quando fala da “fase negra” do Santos (entenda-se final da década de 80 até o final da década de 90)

– a cena em que o Wisnik poetiza as pedaladas do Robinho. São mostradas as (inesquecíveis) pedaladas e no off, o escritor vai conduzindo a cena, com um texto em prosa que casa com a narração ao fundo. Pra finalizar todo este momento estético, a câmera corta pro Robinho, que diz: ‘pô, eu só queria fazer o gol’.

Torcedor é sempre muito exigente e é fato que o filme peca aqui ou ali. Mas também é verdade que ver os lances do seu time numa tela gigante de cinema é muito emocionante. E a emoção pende para os dois lados. Você tem muito mais certeza de que o título de 95 foi super roubado (viu, Marcio Rezende? Deveriam tê-lo entrevistado). E tem mais convicção do futebol arte desse time. Rever lances de Neymar, Ganso e companhia dá esperanças de que eu esteja no tobogã mais uma vez neste ano, comemorando e legitimando o centenário.

Ainda virão mais dois filmes: “Meninos da Vila – a Magia do Santos” será dirigido por Katia Lund e já está em fase de produção e “Santos de todos os gols”, previsto para 2014, também dirigido por Lina Chamie.

Site do filme

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